Ano 1 | nº 65 | 02 de fevereiro de 2026
NOTÍCIAS
Mais de 560 produtores sustentam a produção de 1 bilhão de litros no ano no paraná
Castro e Carambeí lideram a produção de leite no Brasil, impulsionadas por cooperativas fortes, tradição centenária e propriedades que combinam genética, manejo e tecnologia para alcançar altos níveis de produtividade e qualidade.
Os dois municípios que mais produzem leite no Brasil estão nos Campos Gerais, no Paraná. Castro e Carambeí somaram, em 2024, quase 800 milhões de litros, o equivalente a 2,2% da produção nacional, estimada em 35 bilhões de litros, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM 2024), do IBGE. Esse desempenho está diretamente ligado à força das cooperativas da região. Castrolanda, Frísia e Capal, sediadas nos Campos Gerais, formam o chamado Pool Leite, junto com Witmarsum e Coamig. Em 2024, o grupo alcançou um marco histórico: 1 bilhão de litros de leite produzidos. Esse volume é resultado do trabalho de mais de 560 produtores, distribuídos por municípios dos Campos Gerais e algumas cidades do interior paulista. Entre eles está a Fazenda Frísia, em Carambeí, uma das propriedades que se destacam pela escala e pela eficiência produtiva. A fazenda é comandada por Bauke Dijkstra, associado à cooperativa Frísia. Em 2025, a propriedade ultrapassou a marca de 13 milhões de litros de leite, produzidos por um plantel médio de pouco mais de 900 vacas da raça holandesa. Na prática, isso representa uma média diária de 36 mil litros, volume que coloca a fazenda entre as 10 maiores do Paraná e entre as 35 maiores do Brasil. A produtividade média é de 40 litros por animal por dia, cerca de seis vezes acima da média nacional e mundial, estimada em 6,5 litros. Alguns animais, no entanto, superam com folga esse número e chegam a produzir até 80 litros diários. Para Bauke, esse resultado não vem de um único fator. “São basicamente três fatores: conforto animal, qualidade da forrageira e genética. São os três pilares. Um sem o outro, não funciona. Não adianta ter genética e não ter conforto, não adianta ter conforto e não ter genética. E é trabalho de longo prazo, de rotina”, detalha. A ordenha acontece três vezes ao dia, a cada oito horas, em um sistema totalmente mecanizado e sem contato humano. A sala de ordenha recebe 40 vacas por vez, e cada animal tem sua produção monitorada individualmente por equipamentos que analisam volume e qualidade do leite. “Esse serviço tem que ser bem-feito por dia, com qualidade. Então, é muito treinamento, o pessoal tem que ser muito responsável”, diz Dijkstra. Todo o leite segue diariamente para a Unidade de Beneficiamento de Leite (UBL) da Unium, em Ponta Grossa, a menos de 10 quilômetros da fazenda. Ainda assim, a propriedade conta com capacidade própria de armazenamento de até 60 mil litros. A força dos Campos Gerais na produção de leite é resultado de uma história que começou há mais de 100 anos, com a colonização holandesa, e foi sendo aprimorada ao longo do tempo. Clima, altitude e tradição ajudaram a consolidar a região como referência nacional. “Está, digamos assim, no DNA da região. As famílias já produziam leite há muito tempo, e aí começou a crescer. Então eu acho que a região é muito apta. Essa altitude em que nós estamos aqui, de mil metros, permite a gente ter um clima mais ameno; e produção de forrageira de inverno, como o azevém, é possível aqui, e em outras regiões não”, acrescenta Dijkstra. O cuidado com os animais é tratado como parte central do sistema produtivo — e não apenas como um conceito. “O bem-estar animal é uma questão econômica, sem dúvida, porque um animal que não está feliz, que não se sente bem, não vai responder. E é uma questão de amor pelos animais também, porque a gente não quer maltratar os bichos que a gente gosta deles”, reforça Dijkstra. Nos galpões, a ventilação é constante, com grandes ventiladores para reduzir o calor. Em dias mais quentes, as vacas passam por uma sala de resfriamento, com água pulverizada para baixar a temperatura corporal antes da ordenha. A tecnologia complementa o manejo: colares digitais monitoram sinais de estresse ou mal-estar em tempo real. Ao todo, mais de 70 colaboradores trabalham na fazenda.
Na própria fazenda, a produção de milho para silagem é estratégica. No início do ano, são produzidas cerca de 20 mil toneladas, armazenadas sem oxigênio por aproximadamente 90 dias. Essa silagem é uma das principais fontes de alimento ao longo do ano. Cada vaca consome cerca de 40 quilos de alimento por dia, com dieta baseada em silagem de milho e azevém, além de caroço de algodão, farelo de soja, milho moído e uma ração personalizada formulada pelas cooperativas. Mais do que volume, a região entrega leite de alta qualidade. Bauke lembra que o Pool Leite se antecipou às exigências legais brasileiras ainda no início do programa. “Quando o Pool Leite começou, ele se antecipou a todas as leis brasileiras de qualidade de leite, tanto que muita gente se revoltou, disse que ‘o mercado nem está pedindo isso e tal, mas vocês estão exigindo’, e foi um excelente negócio, porque que todo mundo se adequou. Então, hoje a gente tem leite com células somáticas baixas, com contagem bacteriana baixa, por isso todo e qualquer laticínio gosta de comprar nosso leite”, disse Bauke, explicando que os índices de gordura e proteína da propriedade também estão acima da média. Com a expansão da UBL em Ponta Grossa e o início das operações da Queijaria Unium, os planos agora são de crescimento e entrega de produtos com a máxima qualidade. “Queremos crescer mais um pouco nesse ramo, que é a nossa especialidade. Queremos crescer até uns 50 mil litros de leite por dia, por enquanto, nesta propriedade, e depois vamos rever se vamos ampliar em outro lugar, se continuamos ampliando aqui mesmo, ou se vamos fazer recria em outro lugar, para concentrar só com vaca aqui. Mas até 50 mil litros a gente consegue nessa, a gente nunca para”, conclui o produtor.
JORNAL DA MANHÃ, PONTA GROSSA
CEPEA: oferta elevada e estoques pressionaram preços do leite no fim de 2025
Com produção elevada e estoques reforçados ao longo de 2025, o mercado de lácteos encerrou o ano com preços ao produtor em retração, segundo dados do Cepea.
Segundo o Cepea, o preço do leite pago ao produtor voltou a cair em dezembro de 2025. A média Brasil fechou em R$ 1,9966 por litro, o que representa um recuo de 5,78% em relação a novembro de 2025 e de 25,79% na comparação com dezembro de 2024, em termos reais (valores deflacionados pelo IPCA de dezembro/25). Com esse resultado, a desvalorização real acumulada ao longo de 2025 chegou a 25,8%. Já a média anual do ano, de R$ 2,5617 por litro, ficou 6,8% abaixo da registrada em 2024. Os sucessivos recuos nos preços ao produtor estão associados ao nível elevado dos estoques de derivados lácteos. Em 2025, a oferta aumentou de forma significativa, reflexo dos investimentos realizados em 2024 e das condições climáticas favoráveis ao longo do ano. De acordo com o Cepea, entre novembro e dezembro, o ICAP-L (Índice de Captação de Leite) registrou queda de 0,41% na Média Brasil, mas, no acumulado de 2025, apresentou alta de 15,4%. Mesmo com recuo pelo segundo mês consecutivo em dezembro, as importações contribuíram para a manutenção de estoques elevados no último bimestre de 2025. Ao longo do ano, foram adquiridos 2,21 bilhões de litros em equivalente leite, volume 5,9% inferior ao de 2024, marcado por recorde de importações. As exportações, por sua vez, recuaram 31,6% em 2025, totalizando 67,58 milhões de litros em equivalente leite. Análises do MilkPoint Mercado indicam que os preços na indústria já voltaram a reagir, com o mês de janeiro registrando altas em produtos como leite UHT e muçarela. No varejo, por sua vez, dados da FIPE apontam recuos nos preços, movimento que pode estimular o consumo pelo consumidor final. Além disso, janeiro foi marcado por deflação nos custos de alimentação no campo, com quedas nos preços de milho e soja. Soma-se a esse cenário a expectativa de um crescimento menos acelerado da produção ao longo do ano de 2026, o que tende a evitar pressões adicionais de oferta. Em conjunto, esses fatores podem construir, nos próximos meses, um ambiente menos pressionado para os produtores.
CEPEA/MILKPOINT
LEGISLAÇÃO
Reforma Tributária zera imposto de alimentos essenciais
A partir de 2026, alimentos essenciais passam a ter alíquota zero de impostos. Mudança será visível na nota fiscal e deve impactar diretamente o preço pago pelo consumidor. Nos Laticínios, leite fluido, leite em pó e manteiga, terão redução de preços
Um detalhe importante na nota fiscal dos principais supermercados do país deve mudar a rotina de compras das famílias brasileiras a partir de 2026. Com o início da fase de transição da Reforma Tributária uma nova lista de produtos passa a integrar a Cesta Básica Nacional, garantindo alíquota zero de impostos, conforme previsto na Constituição. De acordo com a regulamentação da Emenda Constitucional nº 132/2023, deixa de existir a cobrança dos tributos IBS e CBS sobre produtos considerados essenciais para a segurança alimentar da população. A medida tem como objetivo reduzir o peso dos impostos sobre o consumo, especialmente para as famílias de menor renda, e exige que as redes de varejo ajustem seus sistemas para assegurar que a isenção chegue, de fato, ao consumidor final. Os itens com maior impacto na redução da carga tributária — e, consequentemente, no preço — são:
Proteínas: carnes bovina, suína, ovina, caprina e de aves. Grãos básicos: arroz e feijão
Laticínios: leite fluido, leite em pó e manteiga. Hortifrúti: frutas, legumes e ovos. “A grande mudança é que o consumidor deixará de pagar impostos em cascata invisíveis. A partir de agora, a regra é clara: comida de verdade no prato tem imposto zero”, afirma o relator do grupo de trabalho da Reforma na Câmara. O que muda na nota fiscal do supermercado? Para quem compra em redes de atacarejo e supermercados, a mudança será percebida diretamente no cupom fiscal. A legislação determina transparência total, exigindo que a nota discrimine o valor do tributo zerado nos produtos isentos. Além disso, entra em operação a fase de testes do Cashback Tributário, inicialmente em regiões selecionadas. Famílias inscritas no CadÚnico poderão receber de volta parte dos impostos pagos em produtos que não fazem parte da lista de isenção total, como bebidas açucaradas e alimentos ultraprocessados. O valor será creditado diretamente no CPF ou em cartões de benefícios sociais. Diante das mudanças, a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) orientou seus associados a atualizarem imediatamente os sistemas de gestão (ERPs). O objetivo é evitar inconformidades fiscais, já que a fiscalização será automática, a partir da emissão da Nota Fiscal Eletrônica.
E.M.Foco/MilkPoint
ECONOMIA
Dólar fecha abaixo dos R$5,20 após decisões sobre juros no Brasil e nos EUA
Em uma sessão de volatilidade alta, o dólar fechou a quinta-feira em queda ante o real, abaixo dos R$5,20, acompanhando o recuo da moeda norte-americana ante outras divisas de países emergentes no exterior, no dia seguinte às decisões sobre juros no Brasil e nos Estados Unidos.
O dólar à vista fechou com recuo de 0,27%, aos R$5,1941, no menor valor de fechamento desde os R$5,1539 de 28 de maio 2024. Às 17h09, o dólar futuro para fevereiro — atualmente o mais negociado no Brasil — cedia 0,02% na B3, aos R$5,1965. No início da sessão o dólar emplacou baixas ante boa parte das moedas de emergentes, como o real do Brasil, o peso do Chile e o peso do México, em mais um dia de fluxo de investimentos para estes países. O movimento no Brasil ocorreu ainda que, na noite de quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central tenha indicado a intenção de começar a cortar juros em março, após ter mantido a Selic em 15%. “Em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidentes, a estratégia envolve calibração do nível de juros”, disse o BC em comunicado. “O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.” Nos EUA, a taxa de referência foi mantida na faixa de 3,50% a 3,75% pelo Federal Reserve na tarde de quarta-feira, mas a instituição deu poucas pistas sobre quando haverá espaço para mais cortes. Nas últimas semanas, o forte fluxo de investimentos estrangeiros para mercados emergentes como o Brasil — com destaque para a bolsa — vem pesando sobre as cotações do dólar. Durante a tarde o dólar voltou a perder força ante as divisas de emergentes, o que fez a moeda norte-americana voltar a cair no Brasil, para abaixo dos R$5,20 — ainda que o Ibovespa seguisse pressionado. Com o movimento da quinta-feira, o dólar acumulou queda de 5,37% ante o real em 2026. Ao avaliar a depreciação recente do dólar, o economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management, Gino Olivares, lembrou que isso se deve principalmente a uma maior percepção de risco em relação aos Estados Unidos, e não à perspectiva de corte de juros pelo Federal Reserve.
Reuters
Ibovespa fecha em queda com exterior negativo
O Ibovespa encerrou a quinta-feira em queda, apagando os fortes ganhos registrados pela manhã que levaram a uma nova máxima histórica, pressionado pelo humor negativo que tomou os mercados acionários de Nova York.
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa recuou 0,84%, a 183.313,75 pontos. Na mínima, marcou 181.566,56 pontos e, na máxima, 186.449,75 – recorde intradia. O volume financeiro somou R$38,75 bilhões. Ao longo da manhã desta quinta-feira, a bolsa brasileira chegou a subir mais 1%, impulsionada pela leitura positiva do comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, divulgado ontem à noite. Na ocasião, o BC decidiu manter a taxa Selic em 15% ao ano, como esperado pelo mercado, e fez a indicação de que poderá fazer um corte de juros em março, mas enfatizou que manterá “a restrição adequada” para levar a inflação à meta de 3%. “O comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, disse o BC em comunicado. Contudo, o bom humor do mercado doméstico sucumbiu no início da tarde após a abertura das bolsas de Wall Street. Por lá, os índices tiveram quedas firmes, pressionados por uma perda de 11% nas ações da Microsoft, após divulgação de números trimestrais, enquanto os agentes ainda avaliavam a decisão do Federal Reserve, divulgada na quarta-feira. “A sessão de hoje [do Ibovespa] foi um bom retrato de ‘digestão’ pós-superquarta”, destacou Jose Áureo Viana, sócio da Blue3 Investimentos. O profissional acrescentou que o recorde intradiário da bolsa brasileira “teve muito de reprecificação local [juros futuros e prêmio] e a virada teve muito de correlação com o risk-off no exterior”, além de realização de lucros, tendo em vista o forte do mês. Na agenda doméstica, um dos destaques foram os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que mostraram que o Brasil fechou 618.164 vagas formais de trabalho em dezembro, mas terminou 2025 com saldo positivo acumulado de 1.279.498 vagas. Economistas ouvidos em pesquisa da Reuters esperavam fechamento líquido de 478.000 vagas. Pela manhã, outro ponto de atenção foi a entrevista do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao portal Metrópoles, em que ele afirmou que “com certeza” deixará o governo em fevereiro.
REUTERS
Estoque de crédito no Brasil sobe 10,2% em 2025, desempenho mais forte que o esperado pelo BC
O estoque total de crédito no Brasil cresceu 10,2% em 2025 na comparação com o ano anterior, a R$7,123 trilhões, informou o Banco Central na quinta-feira, em desempenho significativamente mais forte do que o projetado pela autarquia em dezembro.
Em um ano marcado por atividade econômica resiliente apesar do nível elevado dos juros, houve uma expansão mais intensa que o esperado no crédito às famílias, que cresceu 11,6% — a projeção do BC apontava para uma alta de 10,4%. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem apostado em uma sustentação da atividade por meio de novas medidas de crédito, como um programa para facilitar empréstimos a trabalhadores privados com desconto em folha. O crescimento do crédito no país é registrado em meio a uma política monetária restritiva implementada pelo BC para controlar a inflação, tendo colocado a taxa Selic em 15% ao ano, maior nível em quase duas décadas. No caso das empresas, o estoque de crédito fechou 2025 com alta de 8,1%, ligeiramente acima da projeção de 8,0% feita pela autoridade monetária em dezembro. Em dezembro, as novas concessões de empréstimos no Brasil subiram 20,8% na comparação com o mês anterior, acumulando em 2025 alta de 9,1%, segundo o BC. As concessões de financiamentos com recursos livres, nos quais as condições dos empréstimos são livremente negociadas entre bancos e tomadores, avançaram 20,2% em relação ao mês anterior, com ganho de 9,0% em 2025. Para as operações com recursos direcionados, que atendem a parâmetros estabelecidos pelo governo, houve aumento de 26,4% no mês e de 9,4% no ano. No último mês de 2025, a inadimplência no segmento de recursos livres ficou em 5,4%, contra 5,3% no mês anterior. Já os juros cobrados pelas instituições financeiras no crédito livre ficaram em 47,2% ao ano, uma queda de 0,1 ponto percentual em relação ao mês anterior. Nos recursos direcionados, houve alta de 0,3 ponto nos juros médios no mês, a 11,4%. O spread bancário, diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa final cobrada do cliente, caiu para 33,6 pontos percentuais nos recursos livres em dezembro, contra 33,8 pontos no mês anterior.
Reuters
Governo central tem déficit de R$13 bi em 2025 e cumpre meta com gastos fora da conta
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva informou na quinta-feira ter alcançado um resultado fiscal em 2025 compatível com a meta de déficit zero estipulada para o ano, após excluir da conta R$48,7 bilhões em gastos que não serão contabilizados na apuração do resultado.
Dados do Tesouro Nacional mostram que o governo central fechou o ano com um déficit de R$13,008 bilhões, ou 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB), saldo que exclui despesas com precatórios, ressarcimentos a aposentados e algumas despesas de saúde, educação e defesa.
Desse modo, o resultado após as deduções cumpre a meta de déficit primário zero, que tem uma tolerância de 0,25 ponto percentual do PIB. O rombo total do ano, no entanto, é de R$61,691 bilhões, equivalente a 0,48% do PIB. Esse é o valor que, de forma efetiva, impacta negativamente a dívida pública do país. Há duas semanas, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, antecipou o resultado agora oficializado. O déficit total do governo central, composto por Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social, foi maior no ano passado do que o observado em 2024, quando o saldo negativo ficou em R$42,924 bilhões. Os números dizem respeito à diferença entre receitas e despesas do governo, sem contar o gasto com juros da dívida pública. As despesas totais de 2025 tiveram alta real de 3,4%, a R$2,394 trilhões. Já a receita líquida do governo, que desconta transferências a Estados e municípios, subiu 2,8% em termos reais sobre 2024, a R$2,333 trilhões. Em entrevista à imprensa, o secretário do Tesouro, Rogério Ceron, disse que os resultados fiscais da atual gestão, ainda que precisem melhorar, mostram rombos menores que os observados em governos anteriores, que eram “declaradamente fiscalistas”. “O processo de recuperação fiscal está acontecendo, e com crescimento econômico robusto para nosso padrão histórico”, disse. Ele reconheceu, no entanto, que pode ser necessário um debate sobre revisão de parâmetros do arcabouço fiscal para intensificar o ritmo de recuperação das contas públicas a depender do nível dos juros no país, que elevam o custo da dívida pública. Segundo ele, essa discussão poderia passar por eventuais mudanças no teto de crescimento real de 2,5% ao ano dos gastos federais ou na trava que limita a alta das despesas a 70% do desempenho da arrecadação. Os ganhos de receitas em 2025 foram impulsionados por uma arrecadação adicional de R$43,6 bilhões de Imposto de Renda (+5,2%), R$15,4 bilhões de Imposto sobre Operações Financeiras (+21,3%), recentemente elevado pelo governo, e R$9,0 bilhões de Imposto de Importação (+10,9%).
No sentido contrário, houve redução de 57,9% nos ganhos com concessões e permissões do governo (-R$10,0 bilhões), além de uma queda de 34,3% nas receitas de dividendos e participações (-R$26,3 bilhões). No caso da arrecadação com exploração de recursos naturais, houve alta de 11,7% (+R$14,8 bilhões). O Tesouro informou ainda que o empoçamento — recursos que haviam sido liberados para ministérios, mas terminaram o ano em caixa — ficou em R$8 bilhões, contra R$12,5 bilhões observados no fechamento de 2024. Em relação ao mês de dezembro, o governo central registrou um superávit primário de R$22,107 bilhões, saldo menor que os R$24,106 bilhões de superávit em dezembro de 2024. Para 2026, Ceron afirmou que o governo espera entregar um resultado fiscal mais próximo da meta estabelecida para o ano do que o observado em 2025. Em entrevista à imprensa, Ceron afirmou que “o grande objetivo da política fiscal” neste ano é alcançar um superávit nas contas públicas. O alvo fiscal para 2026 é de superávit primário de 0,25% do PIB, com tolerância de 0,25 ponto percentual do PIB.
Reuters
Brasil criou 1,2 milhão de vagas formais no ano passado, pior saldo desde 2020, aponta Caged
Ao longo de 2025, houve 26,59 milhões contratações e 25,3 milhões de desligamentos. Ministro do Trabalho atribui resultado à taxa de juros; desemprego está na mínima histórica
Em 2025, o Brasil teve o pior resultado na geração de empregos formais desde 2020, com a criação de 1,2 milhão de novos postos entre janeiro e dezembro, de acordo com dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) divulgados na quinta-feira (29).
Ao longo de 2025, houve 26,59 milhões contratações e 25,3 milhões de desligamentos, com número de celetistas indo de 47,1 milhões para 48,4 milhões. O aumento no total de vagas formais é de 2,71%, percentual menor do que os registrados em 2023 (3,3%) e 2024 (3,69%).
O resultado de dezembro também mostrou uma piora na comparação com 2024, com saldo negativo de 618 mil postos de trabalho formais. O número representa uma queda de 1,26% na comparação com o último ano. No acumulado do ano, todos os principais agrupamentos de atividades econômicas tiveram aumento nas contratações. O maior crescimento foi de serviços, com 758 mil postos formais, um aumento de 3,29%. O segundo setor com maior saldo foi de comércio, com 247 mil novos postos formais. Por estado, no acumulado de janeiro a dezembro, as maiores altas foram no Amapá, onde houve aumento de 8,4% no total de postos de trabalho formais, na Paraíba, onde houve aumento de 6%, e em Piauí, com 5,81%. O pior resultado foi no Espírito Santo, onde houve um aumento de apenas 1,52%. O ministro Luiz Marinho, de Trabalho e Emprego, atribuiu o resultado menor em dezembro à alta da taxa de juros. Nesta quarta (28), o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu manter a Selic em 15%, percentual que permanece inalterado desde a metade de 2025. Segundo o ministro, a política monetária tem afetado investimentos e a desaceleração do ritmo de crescimento da economia. Ele afirma que, se houver demora na redução dos juros, ainda haverá um tempo para que isso seja sentido pelo mercado, o que comprometeria o resultado do restante do ano. “Procurei dialogar com o Banco Central, mostrando o que a gente conseguia interpretar das atas e que poderia levar a um processo de desaceleração do ritmo [da economia]. Enxergava, insistia que iríamos ter processo de diminuição de velocidade. É o que o BC esperava e trabalhou para diminuir, dada a sua responsabilidade de cumprimento nas metas. Mas isso reflete em queimar orçamento para pagar juros.” O ministro disse ainda que o tarifaço do presidente americano Donald Trump, que chegou a sobretaxar importações brasileiras em 50%, gerou impactos menores do que a Selic elevada, devido à abertura de mercado do Brasil para outros países. O setor de indústria, que foi um dos mais afetados pela política de Trump, teve a criação de 144 mil empregos formais. “O impacto do tarifaço foi amenizado pela política do governo para abrir novos mercados. Isso deu uma minimizada muito grande”, disse Marinho. O resultado negativo na formalidade surge apesar de o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostrar que o Brasil vem seguindo uma tendência de renovar a mínima histórica do desemprego. No trimestre até novembro do ano passado, a taxa de desocupação foi a 5,2%, menor percentual desde 2012, início da série histórica.
FOLHA DE SP
POWERED BY
EDITORA NORBERTO STAVISKI LTDA
041 99697 8868 (WhatsApp)