Informativo Sindileite 204

Ano 1 | nº 204 | 24 de agosto 2026

NOTÍCIAS

RECORDE NA CAPTAÇÃO DE LEITE ESCONDE FORTE FREADA NO CRESCIMENTO

Depois de um salto histórico em 2025, a produção de leite no país mudou completamente de ritmo. A Pesquisa Trimestral do Leite do IBGE trouxe um dado que resume as tensões vividas pelo setor este ano.

A captação de leite no Brasil fechou o segundo trimestre de 2026 em um patamar inédito para o período, mas o resultado esconde uma desaceleração importante no ritmo de crescimento do setor. Segundo dados preliminares da Pesquisa Trimestral do Leite (PTL), do IBGE, o país captou 6,614 bilhões de litros entre abril e junho, volume 1,0% maior do que o registrado no mesmo trimestre de 2025 e o maior já contabilizado para um segundo trimestre desde o início da série histórica, em 1997. O novo patamar superou o recorde anterior, de 6,55 bilhões de litros, alcançado exatamente um ano antes. Mas a comparação entre os dois períodos revela uma mudança de cenário: enquanto o 2º trimestre de 2025 havia crescido 10,2% sobre o mesmo intervalo de 2024, em 2026 o avanço ficou em apenas 1,0%. Mês a mês, o comportamento também mostra um crescimento mais contido. Em abril, a captação somou 2.163.559 mil litros, alta de 1,9% na comparação anual; em maio, 2.231.420 mil litros, com avanço de apenas 0,4%; e em junho, 2.219.013 mil litros, 0,7% acima do mesmo mês de 2025. Frente ao primeiro trimestre deste ano, houve recuo de 2,5% no volume captado — movimento típico da sazonalidade da produção leiteira e da chegada da entressafra em boa parte do país. Ainda assim, o volume do segundo trimestre permaneceu acima do registrado um ano antes. A explicação para a desaceleração está no que aconteceu ao longo de 2025. No início daquele ano, os preços pagos ao produtor e a rentabilidade da atividade estavam em níveis elevados, o que estimulou a expansão da produção e resultou no forte crescimento do 2º trimestre de 2025. Só que, ao longo do próprio ano, o aumento da oferta pressionou para baixo os preços pagos ao produtor e reduziu as margens da atividade. O leite perdeu competitividade frente ao custo da ração e da arroba do boi gordo, e o produtor passou a precisar de mais litros de leite para comprar os mesmos insumos. Em algumas propriedades, o abate dos animais do rebanho chegou a se tornar mais atrativo economicamente do que manter a produção leiteira. O fim do segundo trimestre de 2026 também marcou o início da safra de leite em parte da região Sul do Brasil, uma das principais bacias produtoras do país. A partir de junho, as condições mais favoráveis de produção começaram a impulsionar a recuperação sazonal da oferta, aumentando a disponibilidade de leite no mercado interno. Apesar do volume elevado na comparação anual, a demanda por lácteos seguiu aquecida ao longo do período, o que ajudou a absorver a oferta adicional. Já nos meses seguintes ao trimestre, a menor disponibilidade de leite favoreceu uma recuperação dos preços pagos ao produtor: tanto em junho quanto em julho de 2026, os valores pagos superaram os registrados nos mesmos meses de 2025. Para o que vem pela frente, a expectativa é de que a disponibilidade de leite continue aumentando, principalmente com o avanço da safra na região Sul a partir de junho, o que deve elevar a captação nos próximos meses e manter a oferta em níveis altos — um ponto de atenção para o equilíbrio do mercado. A dinâmica da produção, no entanto, pode ser afetada pelas condições climáticas, especialmente pela intensificação do fenômeno El Niño, que tem potencial para alterar o regime de chuvas e impactar o desempenho das principais bacias leiteiras do país. Por outro lado, a manutenção da demanda aquecida, combinada com a melhora dos preços pagos ao produtor, aponta para um cenário mais favorável à atividade leiteira. A expectativa é de que a rentabilidade do produtor nos próximos meses supere os níveis observados no mesmo período de 2025, o que deve sustentar o estímulo à produção ao longo do segundo semestre.

SINDILAT/EDAIRYNEWS

Consumo de lácteos cai 3,8% no Brasil em 2026

Leite longa vida recua 5,7% entre janeiro e julho, enquanto versões sem lactose e produtos com mais proteína registram altas de até 54,5%; dados da Embrapa mostram mudança na composição da cesta.

O consumidor brasileiro reduziu a quantidade de lácteos comprada nos primeiros sete meses de 2026, mas não deixou de consumir a categoria de forma generalizada. O movimento mais relevante está na composição da cesta: enquanto o leite longa vida perdeu volume, produtos como queijos, leite condensado, leite em pó e iogurtes ganharam espaço. Dentro dessas categorias, versões sem lactose, proteinadas e algumas apresentações de menor custo registraram altas ainda mais expressivas. O volume total de lácteos comercializado entre janeiro e julho caiu 3,8% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Radar do Consumo de Lácteos, divulgado em agosto pelo Observatório do Consumidor, do Centro de Inteligência do Leite (CILeite) da Embrapa Gado de Leite. O faturamento real recuou 4,6%, enquanto o preço implícito real variou apenas 0,9% para baixo. A diferença entre os indicadores mostra que a retração do mercado está mais relacionada à quantidade vendida do que a uma queda relevante dos preços médios. O consumidor está comprando menos volume, mas também está substituindo produtos dentro da própria categoria. O cenário ocorre em um ano de economia com menor ritmo, juros elevados e inflação pressionando o orçamento das famílias. Para o levantamento, esse ambiente ajuda a explicar por que a análise do mercado agregado não é suficiente para compreender o comportamento da demanda. Os dados de janeiro a julho mostram que as famílias estão reorganizando suas escolhas entre categorias e subcategorias. Entre as 19 categorias analisadas, os queijos tiveram o maior crescimento em volume, de 4,6%. Na sequência aparecem leite condensado, com 2,9%; leite em pó, 1,6%; e iogurte, 0,9%. Creme de leite ficou praticamente estável, com alta de 0,3%. O movimento foi inverso entre os principais produtos de leite fluido. O leite longa vida, responsável por mais da metade do volume comercializado no mercado analisado, recuou 5,7%. O leite fermentado caiu 7,2% e o pasteurizado teve retração de 13,3%. A diferença entre as categorias mostra que a queda de 3,8% no mercado não representa uma retração uniforme do consumo de lácteos. O volume está migrando de determinados produtos para outros. Esse movimento fica mais evidente quando os dados são desagregados. O Radar analisou 84 subcategorias e encontrou altas superiores a 20% em diversos produtos, ao mesmo tempo em que outras subcategorias registraram quedas próximas ou superiores a 25%. Entre as maiores altas estão produtos associados a atributos de saúde e funcionalidade. O volume vendido de iogurte sem lactose sabor grego aumentou 54,5% nos sete primeiros meses do ano. O iogurte sem lactose familiar cresceu 40,4%, enquanto a bebida láctea proteinada avançou 36%. O leite em pó desnatado teve alta de 27,5%, o requeijão light cresceu 26,2% e o iogurte proteico individual aumentou 24,9%. Também registraram crescimento os queijos processados fundidos e cremosos, com 23,9%, e a bebida láctea resfriada em bandeja e individual, com 21,1%. Os dados indicam que atributos ligados à saúde ganharam espaço na decisão de compra. Mas o movimento não se resume a esse fator. Algumas das maiores altas também apontam para mudanças relacionadas ao preço e à apresentação do produto. Muçarela e queijo prato vendidos em peça, por exemplo, tiveram crescimento de 26,4%, enquanto produtos fatiados perderam espaço. A bebida láctea familiar também avançou. Para o CILeite, esses movimentos indicam que, em um mercado pressionado, o consumidor pode manter a compra da categoria trocando a versão do produto por uma alternativa que considere mais adequada ao orçamento. A mudança da cesta também impede generalizações sobre determinadas tendências. Dentro da própria categoria de iogurtes, por exemplo, há produtos com crescimento expressivo e outros em forte retração. Entre as maiores quedas registradas nas 84 subcategorias estão o iogurte petit em pouch, com baixa de 28,3%; os iogurtes funcionais individuais, -27,8%; o iogurte sem lactose fermentado, -25,7%; e o iogurte com pedaços de frutas ou camadas em embalagem individual, -24,8%. O resultado mostra que a presença de um determinado atributo não garante, isoladamente, maior demanda. Formato, tamanho, preço e proposta de valor também interferem na escolha. A relação entre preço e volume também varia entre as categorias. O levantamento mostra que houve produtos que aumentaram o volume comercializado mesmo diante de preços mais elevados. Outros perderam volume apesar de apresentarem preços estáveis ou em queda. A queda do faturamento real de 4,6%, portanto, ocorre em um mercado no qual o preço médio praticamente não se alterou. A principal variável que puxou o resultado para baixo foi o volume, que caiu 3,8%. O comportamento observado até julho aponta para uma mudança na composição da demanda brasileira por lácteos. O mercado encolheu em volume, mas a retração não atingiu todos os produtos da mesma maneira. O leite longa vida, que concentra mais da metade do volume comercializado, perdeu 5,7%, enquanto os queijos avançaram 4,6%. Dentro das subcategorias, a distância é ainda maior: o iogurte sem lactose sabor grego cresceu 54,5%, enquanto o leite em pó semidesnatado recuou 47,7%. A fotografia dos primeiros sete meses de 2026 é, portanto, menos de queda generalizada do consumo e mais de reorganização da cesta de lácteos. O consumidor submetido a maior pressão sobre o orçamento parece estar fazendo escolhas mais específicas: reduz determinados produtos, mantém ou amplia outros e muda versões e apresentações dentro de uma mesma categoria. Ao mesmo tempo, produtos com atributos como ausência de lactose e maior teor de proteína aparecem entre os que mais avançaram. Para a indústria de lácteos, a diferença entre essas trajetórias é mais relevante do que o resultado agregado do mercado. O volume total caiu, mas há nichos crescendo a taxas elevadas e categorias tradicionais perdendo espaço.

O Presente Rural

Häagen-Dazs vai deixar de ser vendida no Brasil após quase 29 anos

A Häagen-Dazs, uma das marcas mais conhecidas de sorvete premium do mundo, vai deixar de ser distribuída oficialmente no Brasil após quase 29 anos de presença no mercado nacional.

A Häagen-Dazs, uma das marcas mais conhecidas de sorvete premium do mundo, vai deixar de ser distribuída oficialmente no Brasil após quase 29 anos de presença no mercado nacional. A decisão foi confirmada pela General Mills, dona da marca, e faz parte de uma reformulação global do portfólio da companhia. Com a mudança, os potes da Häagen-Dazs devem deixar gradualmente as prateleiras de supermercados, restaurantes e outros pontos de venda que comercializam os produtos oficialmente no país. A saída do Brasil acontece no mesmo período em que a General Mills concluiu a venda de sua operação brasileira para o Grupo 3corações, em uma negociação de R$ 800 milhões. O negócio, anunciado em 17 de março de 2026, levou para o grupo cearense marcas importantes como Yoki e Kitano. A Häagen-Dazs, porém, ficou fora da transação. Isso aconteceu porque a General Mills decidiu manter a marca de sorvetes super premium dentro de seu portfólio global. A Häagen-Dazs chegou ao Brasil em 1997, entrando em um mercado que ainda tinha poucas opções de sorvetes posicionados no segmento super premium. No ano seguinte, a empresa abriu sua primeira loja em São Paulo. A estratégia inicial previa uma expansão significativa, com a expectativa de chegar a 29 unidades. O projeto, porém, não avançou como planejado. Ao longo dos anos, a companhia reduziu sua presença física até decidir encerrar as oito lojas próprias que ainda mantinha no país em 2018. Depois disso, a marca passou a concentrar sua operação brasileira na venda dos produtos por meio de supermercados e restaurantes. A General Mills relaciona a decisão a uma reformulação global de portfólio. Na prática, a empresa está reorganizando suas operações e escolhendo quais marcas e mercados continuarão recebendo distribuição direta. A saída brasileira não significa, portanto, que a Häagen-Dazs esteja sendo encerrada mundialmente. Pelo contrário: a marca continua fazendo parte da estratégia global da General Mills. O que muda é a distribuição oficial no mercado brasileiro. Com o encerramento da distribuição oficial, os produtos que ainda estiverem disponíveis no país poderão permanecer nas prateleiras enquanto houver estoque. Isso significa que o consumidor pode continuar encontrando potes da marca durante algum tempo, mas a tendência é de redução gradual da oferta. Também podem existir produtos importados por outros canais, mas eles não representam necessariamente a continuidade da distribuição oficial da General Mills no Brasil.

NC NEWS/MIKLKPOINT

NACIONAL

Música clássica e 11 vacas: produtora fabrica queijos premiados em Mato Grosso

Empreendimento conquistou medalhas em competições estaduais e nacionais e no mundial da categoria. Rita Hachiya aposta em genética, bem-estar animal e sustentabilidade para agregar valor à produção

Em uma propriedade de apenas nove hectares, em Sorriso, no médio-norte de Mato Grosso, 11 vacas da raça Jersey estão na origem de uma produção de queijos artesanais premiados em concursos estaduais, nacionais e até no Mundial do Queijo. À frente do negócio está a produtora rural e queijeira Rita Hachiya, que aposta em uma combinação de práticas de manejo, genética, bem-estar animal, sustentabilidade e rastreabilidade para agregar valor ao processo. O planejamento minucioso começa muito antes da ordenha. Os animais permanecem no pasto durante todo o ano e são criados em um sistema silvipastoril, que integra a pecuária a uma floresta de eucalipto plantada na propriedade. Rita conta que adquiriu o sítio em 2009 e, dois anos depois, iniciou a implantação da floresta. A decisão, segundo ela, não teve como objetivo a exploração comercial da madeira, mas a criação de um ambiente mais adequado para os animais e a conservação ambiental. “Como queremos criar os animais da forma mais natural possível, plantamos os eucaliptos não com a finalidade de comercializar a madeira, mas de proporcionar conforto térmico, reduzir o carbono, promover o bem-estar animal e preservar o meio ambiente”, afirma. Para garantir alimento ao rebanho também durante o período de estiagem, a produtora investiu em um sistema de irrigação. As vacas são mantidas em piquetes rotacionados e têm acesso ao pasto durante todo o ano. O manejo, de acordo com Rita, também contribui para as características sensoriais dos queijos. “Com isso, eu consigo um sabor diferenciado nesse queijo artesanal”, explica. O cuidado com o rebanho vai além da alimentação. Para reduzir o estresse dos animais, a propriedade adota práticas como música clássica durante a ordenha, bolas para entretenimento e escovas que permitem às vacas se coçar. Outra aposta da família foi a produção de leite proveniente exclusivamente de animais com genótipo A2A2. A estratégia começou em 2015. “Vendemos tudo e ficamos apenas com as que eram do genótipo A2A2. Não compramos animais. Todas as vacas nasceram aqui na propriedade. Eu gosto de ter esse primeiro contato com o animal, desde o nascimento”, conta. Além da seleção genética, o rebanho é certificado como livre de brucelose e tuberculose desde 2014. O controle sanitário e os cuidados adotados na produção foram fundamentais para que o queijo artesanal autoral da propriedade, batizado de “Poranga”, obtivesse autorização para comercialização em todo o território nacional. Em 2023, o produto recebeu o Selo Arte, concedido pelo Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT). A certificação reconhece produtos alimentícios elaborados de forma artesanal, desde que atendam às exigências sanitárias e preservem características tradicionais, regionais ou culturais. “A finalidade foi mostrar que, mesmo sendo uma pequena propriedade, conseguimos alcançar o nível de qualidade de um produtor maior”, afirma Rita. Atualmente, o Sítio Vila Láctea mantém 11 animais, dos quais seis estão em lactação. A produção diária chega a aproximadamente 70 litros de leite, destinados à fabricação de queijos, manteigas e iogurtes. O investimento em qualidade e agregação de valor vêm sendo reconhecidos nos concursos do setor. Rita já acumula medalhas em competições estaduais e nacionais e no Mundial do Queijo, realizado em São Paulo, em maio de 2026.

GLOBO RURAL

LEGISLAÇÃO

Reforma Tributária e o futuro do sorvete: a transição que vai redefinir margens, precificação e B2B

Para o ecossistema de gelados comestíveis, a virada do sistema tributário brasileiro representa a maior transformação operacional e comercial dos últimos trinta anos.

Não se trata apenas de trocar siglas como PIS, COFINS, ICMS e ISS pelo modelo de IVA Dual (CBS no âmbito federal e IBS no estadual e municipal). Trata-se de uma verdadeira revolução cultural na precificação, na gestão de fornecedores e nas relações B2B que conectam a fábrica de sorvetes aos restaurantes, lanchonetes, padarias e supermercados de todo o país. No centro desse debate está o conceito do imposto “calculado por fora”. Até hoje, o empresário brasileiro precificou seus produtos embutindo a carga tributária dentro da margem bruta. A partir da implementação da reforma, o preço do produto passa a ser apurado pelo “valor limpo”, enquanto a alíquota tributária é destacada à parte. Essa mudança parece sutil no papel, mas exige uma completa reeducação na forma como a indústria apresenta seu valor ao mercado e negocia com o canal food service. Outro ponto importante debatido recentemente pela ABRASORVETE em fóruns com associados é o dilema vivido por micro e pequenas empresas enquadradas no Simples Nacional, que representam a esmagadora maioria do nosso setor. Com a chegada da CBS e do IBS e a introdução do mecanismo de Split Payment (onde o direito ao crédito tributário pelo comprador fica estritamente condicionado ao recolhimento efetivo do imposto pelo vendedor), abre-se uma encruzilhada estratégica. Se por um lado manter-se no Simples preserva a simplicidade burocrática, por outro pode distanciar a pequena indústria de grandes compradores do lucro real, que passarão a priorizar parceiros comerciais capazes de repassar o crédito tributário de forma integral. A competitividade do futuro não será medida apenas pela qualidade do sorvete ou pela inovação nos sabores, mas também pela eficiência e transparência da sua engenharia fiscal. A boa notícia é que o novo sistema traz avanços há muito aguardados pela indústria. O direito ao crédito amplo e imediato sobre ativos e investimentos operacionais — como a aquisição de maquinários de alta tecnologia, frota refrigerada e até freezers cedidos em comodato ao ponto de venda — representa uma vitória para a modernização do setor. Da mesma forma, a regra de aproveitamento de crédito sobre os estoques na transição traz um alívio fundamental para a preservação do fluxo de caixa. A Reforma Tributária não deve ser encarada com pessimismo, mas com preparo e pragmatismo. Quem entender a nova lógica fiscal com antecedência, ajustando seus ERPs, requalificando sua cadeia de suprimentos e renegociando margens com transparência, não apenas sobreviverá à transição, mas liderará a nova era do mercado de alimentação no Brasil.

ABRASORVETE

ECONOMIA

Dólar fecha em queda firme contra o real com exterior favorável e eleições

O dólar fechou a sexta-feira em queda firme contra o real, que liderou os ganhos entre as principais moedas, pegando carona no enfraquecimento da moeda norte-americana, ao mesmo tempo em que os agentes monitoraram o noticiário eleitoral. O dólar à vista fechou em queda de 1,00%, aos R$5,1417 na venda.

Às 17h40, o contrato de dólar futuro para setembro — atualmente o mais negociado no Brasil — caía 1,05% na B3, aos R$5,1515. Na semana, o dólar acumulou 1,53% de queda contra o real. A moeda norte-americana caiu no exterior para o menor nível em três meses, com o aumento das preocupações de que o plano do Tesouro dos Estados Unidos de expandir a recompra de títulos públicos de longo prazo possa pressionar ainda mais a divisa. Por volta das 17h40, o índice do dólar — que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas — subia 0,07%, a 98,856. Nesse ambiente, o real e o peso chileno lideraram os ganhos da sessão entre as moedas mais líquidas, enquanto o euro atingiu o maior valor desde 14 de maio e a libra esterlina atingiu o maior nível desde 11 de fevereiro. Além do quadro cambial favorável no exterior, o cenário eleitoral doméstico deu ainda mais fôlego para o real. Investidores aguardam a divulgação, no início da noite da sexta-feira, de uma nova pesquisa de intenções de voto do Datafolha sobre o cenário para as eleições presidenciais de outubro. Na última segunda-feira, levantamento BTG/Nexus mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seguem em empate técnico em um eventual segundo turno, embora o petista continue numericamente à frente. A perspectiva de uma disputa presidencial mais acirrada, com menor diferença de percentual de intenções de voto entre os principais candidatos, é bem-vista pelo mercado, que vê um risco fiscal maior em um eventual próximo mandato de Lula. “O mercado segue bastante sensível ao quadro fiscal, que, por sua vez, é uma derivada direta do desfecho eleitoral”, disse Bruno Perri, economista-chefe e fundador da Forum Investimentos.

REUTERS

Ibovespa fecha em alta com respaldo de bancos e assegura ganho semanal

O Ibovespa fechou em alta na sexta-feira, rondando os 172 mil pontos, com respaldo das ações dos bancos e assegurando desempenho semanal positivo. 

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa avançou 1,84%, a 171.014,62 pontos, acumulando alta de 2,44% na semana, de acordo com dados preliminares. No mês, ainda recua 3,92%. Na máxima do dia, chegou a 171.979,78 pontos. Na mínima, marcou 167.928,33 pontos. O volume financeiro no pregão somava R$30,1 bilhões antes dos ajustes finais.

REUTERS

Indústria vê déficit comercial bater recorde no 1º semestre

Defasagem tecnológica brasileira ajuda a explicar saldo negativo, com problemas que vão de remédios a carros elétricos

A indústria de transformação fechou o primeiro semestre do ano com déficit comercial de US$ 38,2 bilhões, o mais profundo da série histórica iniciada em 2000. De janeiro a junho de 2025 o saldo negativo foi de US$ 37 bilhões, agora o segundo mais acentuado da série. O resultado da indústria na primeira metade deste ano contrasta com o desempenho da balança comercial total do país. Puxada pela exportação de commodities, a balança total acumula saldo positivo de US$ 49 bilhões de janeiro e julho e deve ter em 2026 superávit superior ao projetado no início do ano. A indústria de transformação teve na primeira metade do ano a reação do ramo de aeronaves, cujas exportações, após sete anos, recuperaram o nível pré-pandemia. O desempenho levou o déficit comercial do segmento a quase um décimo do observado de janeiro a junho de 2025. Outros ramos industriais, porém, tiveram os mais agudos déficits para o primeiro semestre desde 2000, provocados principalmente por níveis históricos de importação. Entre eles, farmacêuticos, complexo eletrônico e os ramos de veículos, reboques e carrocerias, de produtos de borracha e plástico e de têxteis, vestuário e calçados, segundo dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Para Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi, os déficits comerciais em níveis históricos refletem a defasagem tecnológica brasileira em vários segmentos, favorecendo o aumento das importações, desde remédios até eletrônicos e carros eletrificados. Os dados do Iedi mostram que houve pelo menos um segmento com déficit comercial recorde em todos os quatro grupos da indústria classificada por intensidade tecnológica, desde a alta tecnologia até a média-baixa intensidade, passando pela média-alta e média tecnologias. Nos grupos menos intensos em tecnologia, aponta Cagnin, a questão é a competitividade da produção brasileira, que enfrenta importados fabricados em grande escala e em condições de melhor custo, caso de borrachas e plásticos e de têxteis, vestuário e calçados. O impacto das cotações de petróleo com a eclosão do conflito no Oriente Médio também fez diferença em algumas atividades. O déficit da balança da indústria de janeiro a junho deste ano resultou de US$ 94,7 bilhões em exportações, com alta de 7,1% ante igual período de 2025. Na mesma comparação, as importações cresceram a taxa um pouco menor, de 5,9%, mas sobre uma base maior, o que resultou em US$ 132,9 bilhões em compras externas. Apesar do aprofundamento do déficit comercial da indústria de transformação, Cagnin destaca aspectos positivos. Na alta tecnologia, pela primeira vez as exportações superaram o patamar do pré-pandemia, de 2019. Esse grupo fechou o primeiro semestre com US$ 4,4 bilhões em embarques, superior aos US$ 3,3 bilhões do ano passado e pouco acima dos US$ 4,3 bilhões de 2019, sempre de janeiro a junho. A recuperação deve-se muito à exportação de aeronaves, que alcançou US$ 2,8 bilhões no primeiro semestre do ano e cresceu 52,9% ante mesmos meses de 2025, desempenho que puxou a alta de 33,1% nos embarques do grupo da alta tecnologia. A alta da exportação foi acompanhada de redução de 52,5% na importação de aeronaves. A combinação resultou num saldo comercial ainda negativo, de US$ 0,6 bilhão, mas bem menor que o déficit de US$ 5,4 bilhões de 2025, sempre no primeiro semestre. Mesmo assim, observa Cagnin, o déficit comercial do grupo da indústria de alta intensidade tecnológica persiste em nível elevado.

VALOR ECONÔMICO

Custos mais altos derrubaram lucro das empresas do agro no 2° trimestre

Aumentos de frete marítimo e combustíveis decorrentes do conflito no Oriente Médio, juros elevados e novas dinâmicas comerciais pesaram nos resultados. Empresas de carnes que atuam nos EUA ainda sentem impacto da oferta restrita de gado no país

As expectativas do mercado eram negativas e se confirmaram. No segundo trimestre do ano, boa parte das empresas do agronegócio teve queda nos lucros, reflexo de um cenário de custos elevados nem sempre acompanhados de preços remuneradores. A guerra no Oriente Médio fez disparar os gastos de exportadores com fretes e, ao aumentar a pressão inflacionária, freou o ritmo de corte dos juros, elevando despesas com dívidas. Entre os frigoríficos, o alto custo do gado bovino nos Estados Unidos e a formação de estoques para lidar com novas dinâmicas comerciais também pesaram. Mas o terceiro trimestre tende a ser mais positivo, com a elevação de preços de vários produtos. Dados compilados pelo Valor Data mostram que, de 21 companhias do setor, 11 viram o lucro cair em relação ao segundo trimestre de 2025. Oito tiveram prejuízo e 13 marcaram recuo no lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda). “Um denominador comum foi o nível de alavancagem mais alto que, quando combinado com o alto patamar de juros, faz com que a geração de caixa fique comprimida”, observa Gustavo Troyano, analista do Itaú BBA. A Selic em níveis elevados também afeta o endividamento dos produtores rurais e suas compras de insumos, com impacto para empresas como a 3tentos, afirma Gabriel Barra, analista do Citi. Entre os frigoríficos, o preenchimento da cota de exportação de carne bovina para a China pesou sobre os resultados do segundo trimestre e deve seguir afetando os do terceiro trimestre. De abril a junho, a perspectiva de que a cota seria preenchida em julho fez algumas empresas utilizarem mais capital de giro para formar estoques de vendas a serem pagas no terceiro trimestre. Foi o caso da Minerva, que espera monetizar os estoques no segundo semestre. “Em geral essa indústria não trabalha com estoques, mas achei positivo, de forma tática”, diz a analista do Citi Renata Cabral. A ausência da China nas compras no terceiro trimestre deve ser sentida, ainda que grandes frigoríficos consigam diversificar mais as vendas que os de menor porte. Mas até empresas com baixa exposição à China, como a MBRF, poderá ser afetadas pela maior oferta e preços mais baixos no mercado interno da carne que iria para os chineses, segundo a analista do Citi. Quanto às operações de frango, a maior oferta nos Estados Unidos prejudicou o resultado da Pilgrim’s Pride, da JBS. A margem Ebitda encolheu 6,9 pontos, para 5,2%. Já a MBRF, sem operação de frango nos país, lidou com oferta mais equilibrada no Brasil. De forma similar à Minerva, a MBRF fez estoques para suprir o Oriente Médio, o que dificultou a redução da alavancagem, mas deve se reverter em receita no terceiro trimestre, disse o vice-presidente de finanças da empresa, José Ignacio Scoseria, em teleconferência. Nos diversos mercados internacionais, a demanda segue firme, impulsionada pelo aumento da renda e da ingestão de proteínas. Para o estrategista-chefe da Sincra, Gustavo Cruz, 2026 está sendo um ano difícil para o setor. “O agronegócio sofreu também por conta da guerra no Irã, que encareceu o diesel e o preço de fertilizantes”, afirma. Além de obrigar os brasileiros a enviarem cargas por rotas alternativas mais longas e caras, como o Canal de Suez, o conflito também encareceu o escoamento interno da safra brasileira em razão da alta do petróleo e do diesel. Troyano, do Itaú BBA, acredita em uma melhora gradual do cenário para as empresas do agro no terceiro trimestre. O El Niño ainda é um “problema do futuro” para os balanços, mas pode virar oportunidade, dependendo de onde a empresa estiver, diz ele. O fenômeno, previsto para ser o mais forte da história, terá seu pico entre o fim de 2026 e início de 2027. “Na nossa visão, 2026 como um todo ainda é um ano desafiador”, avalia Troyano.

VALOR ECONÔMICO

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