Ano 1 | nº 53 | 15 de janeiro de 2026
NOTÍCIAS
Leite A2: o diferencial e o papel da genética na produção
O leite A2A2 avança no mercado brasileiro e desperta interesse por seus diferenciais ligados à proteína do leite. Veja o que muda em relação ao leite convencional, quais os possíveis benefícios ao consumidor e como a genética orienta a formação de rebanhos A2A2.
A oferta e o consumo do leite e de derivados do tipo A2 (A2A2) vêm crescendo no Brasil nos últimos anos. Mas quais são, de fato, os diferenciais desse leite e os benefícios envolvidos, tanto para consumidores quanto para produtores? Segundo a médica-veterinária Mariana Alves Silva, assessora técnica da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), o leite A2 é produzido por vacas que apresentam uma variação genética específica na proteína beta (β)-caseína, o que pode trazer vantagens para pessoas com sensibilidade ao leite convencional.
“O leite A2A2 vem sendo bastante difundido pelos seus possíveis benefícios, mas é importante entender qual é a diferença. O leite não muda em relação à lactose e sim na proteína. O leite comum pode conter as variantes A1 e A2, enquanto o leite A2A2 contém apenas a β-caseína A2″, detalha. As caseínas representam a maior fração proteica do leite e se dividem em quatro grupos: alfa-caseína 1 e 2, beta-caseína e kappa-caseína. Durante a digestão, a β-caseína A1 pode liberar um peptídeo chamado BCM-7 (beta-casomorfina-7), que, em pessoas sensíveis, está associado a desconfortos gastrointestinais, como sensação de má digestão e estufamento.
A expansão do leite A2A2 pode representar um diferencial competitivo para os produtores, desde que haja identificação e seleção adequada dos animais aptos a produzi-lo. Essa identificação é realizada por meio de testes genéticos moleculares, geralmente por PCR ou genotipagem de SNP (Polimorfismos de Nucleotídeo Único). Mariana Silva esclarece que, do ponto de vista genético, as vacas podem apresentar três combinações: A1A1, A1A2 ou A2A2. “Somente vacas A2A2 produzem exclusivamente leite A2. O resultado do exame indica claramente se o animal é A1A1, A1A2 ou A2A2”, afirma. A veterinária e pesquisadora da EPAMIG, Débora Gomide, destaca que os genes associados ao leite A2 são mais frequentes em raças zebuínas, como Nelore e Gir. Embora a EPAMIG não faça distinção entre os tipos de leite produzidos, testes realizados nos Campos Experimentais Getúlio Vargas, em Uberaba, e de Leopoldina indicaram que grande parte dos animais é A2A2. Para produtores interessados em formar um rebanho A2A2, a principal estratégia envolve a testagem genética de vacas e novilhas e o uso exclusivo de sêmen de touros A2A2. “Devem ser priorizadas como matrizes as vacas A2A2 e, para reposição, apenas filhas A2A2. Animais A1A1 podem ser descartados gradualmente ou direcionados para a produção de leite convencional. Seguindo essa estratégia, em duas a três gerações, é possível ter um rebanho predominantemente A2A2”, orienta Mariana Silva.
EPAMIG
Alta das proteínas deve seguir forte no mercado em 2026
A febre das proteínas deve continuar moldando o mercado de alimentos e bebidas em 2026, com desdobramentos que vão além do simples aumento de teor proteico.
Analistas e fornecedores de ingredientes apontam para a consolidação da proteína como atributo esperado pelo consumidor, ao mesmo tempo em que novas aplicações, formatos e combinações funcionais ganham espaço nas gôndolas. A presença de alegações como “alto teor de proteína” já se espalhou por praticamente todas as categorias, de iogurtes e cereais a snacks e bebidas. Segundo a Mintel, essa lógica de “maximização” tende a perder força no longo prazo, com dietas mais diversas até 2030. No curto prazo, porém, o movimento segue intenso.
Especialistas em ingredientes avaliam que, nos próximos 12 meses, a proteína continuará sendo um dos principais vetores de inovação, impulsionada por grandes fabricantes e pelo interesse do consumidor em saciedade, controle de peso e manutenção de massa muscular. O avanço da febre das proteínas é reforçado por decisões estratégicas de multinacionais. A Nestlé lançou refeições congeladas prontas com alto teor proteico e desenvolveu um microgel patenteado de soro de leite para enriquecer bebidas lácteas. Já a Danone investe em shots com 10g de proteína voltados à saúde muscular. Para Arla Foods Ingredients, o movimento deve se intensificar em 2026 com a chegada de mais refrigerantes proteicos formulados a partir da beta-lactoglobulina do soro de leite Segundo Peter Schouw Andersen, diretor sênior de nutrição de desempenho da empresa, grandes marcas já trabalham nesse tipo de aplicação. Além do volume de proteína, a indústria passa a explorar combinações com outros benefícios. A FrieslandCampina Ingredients define essa abordagem como “proteína-plus”: produtos ricos em proteína que incorporam ingredientes funcionais, como fibras, para atender demandas relacionadas à saúde intestinal, energia ou bem-estar. Na prática, a proteína deixa de ser diferencial e passa a ser pré-requisito. O foco se desloca para o valor agregado. Bebidas, iogurtes e sobremesas lácteas congeladas já aparecem como plataformas naturais para essa evolução. Esse movimento também chega ao foodservice. A Starbucks ampliou sua oferta de bebidas com alto teor proteico, como lattes e cold foams que chegam a 36 g de proteína por porção grande. Apesar da força nos Estados Unidos e na Europa, a febre das proteínas ainda não é homogênea. Segundo Andrew Taylor, vice-presidente executivo de alimentos e bebidas da Novonesis, a tendência está apenas começando em mercados asiáticos e em outras regiões. Segundo especialistas, a febre das proteínas não dá sinais de arrefecimento em 2026. Embora o discurso evolua para propostas mais equilibradas e funcionais, o espaço para crescimento ainda é amplo.
BHB FOOD/MilkPoint
GOVERNO
Governo quer ter árabes como sócios em recuperação de pastos
Em fevereiro, missão do Ministério da Agricultura no Oriente Médio vai propor a fundos a compra de participação minoritária em Fiagros
Nos últimos três anos, governo tem estudado opções para atrair recursos para o programa, que tem como ambição transformar 40 milhões de hectares degradados — Foto: Globo Rural
O Ministério da Agricultura pretende apresentar em fevereiro a fundos soberanos árabes uma proposta de investimento em terras no Brasil para apoiar a conversão de pastagens para áreas agrícolas. Como a propriedade de terras por estrangeiros é limitada no Brasil, a ideia é que os investidores estrangeiros possam entrar como cotistas minoritários de fundos de investimento no agronegócio (Fiagros) e se associar a proprietários brasileiros. O Banco do Brasil deverá desenhar a proposta em conjunto com a Pasta. O ministério quer criar uma alternativa para a atração de capital estrangeiro para financiar as ações do programa Caminho Verde Brasil, de recuperação de pastagens degradadas. Nos últimos três anos, o governo tem estudado opções para atrair recursos para o programa, que tem como ambição transformar 40 milhões de hectares degradados — o equivalente, hoje, a metade do total de pastos degradados no país — em áreas de agricultura ou floresta. O desafio é encontrar um grande volume de recursos e a baixo custo, uma vez que a conversão de áreas degradadas é cara, e os recursos oferecidos atualmente com subvenção do Tesouro Nacional são escassos. As conversas ainda são preliminares, mas, em um ambiente de juros altos, que praticamente inviabilizam o acesso dos produtores a recursos, a opção de atração de investimentos diretos, com “equity”, ao invés de financiamentos, ganhou força no ministério. Para viabilizar a entrada de estrangeiros, a alternativa de inclusão como minoritários contornaria as restrições atuais. Entre as limitações está, por exemplo, a regra que obriga os estrangeiros que comprarem áreas com mais de 100 módulos de exploração indefinida a submeterem a operação ao Congresso.
“Se esse projeto der certo, é uma fonte de financiamento sem custo financeiro e sem variação de moeda”, disse Carlos Ernesto Augustin, assessor especial do Ministério da Agricultura e responsável pelo Caminho Verde Brasil na Pasta. Segundo ele, a dificuldade de obtenção de crédito do exterior é o custo para fazer o dinheiro entrar no Brasil, um trabalho que exige operações de hedge cambial que, na prática, anulam o benefício dos juros menores do mercado externo. “Não tem sido fácil resolver o problema da conversão”, afirmou. O roteiro da visita ao Oriente Médio para apresentar o projeto deverá incluir Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar. A missão deverá se reunir com os grandes fundos soberanos da região, como o saudita Salic e o emiradense Mubadala. Segundo Augustin, em contatos prévios, os países árabes já demonstraram interesse, vendo o plano como uma forma de garantir segurança alimentar para suas populações. A Pasta avalia discutir também a possibilidade de que, por meio das tradings locais, os países estrangeiros estabeleçam contratos de compras preferenciais da produção das terras em que seus fundos soberanos tiverem participação. E, ao invés de receberem uma renda com financiamento, os fundos soberanos poderão ganhar com a valorização patrimonial das áreas convertidas. Segundo ele, um hectare em Mato Grosso que passe de pastagem degradada para lavoura pode ter uma valorização de até cinco vezes, considerando que hoje uma área de pasto degradado vale 200 sacas de soja por hectare, e uma área com lavoura vale 800 a mil sacas por hectare. Nesse modelo de Fiagro, o Ministério da Agricultura avalia a possibilidade de o Banco do Brasil entrar na governança do veículo de investimentos, podendo participar inclusive como cotista. Segundo Augustin, esse modelo de investimento pode atrair tanto produtor que têm pasto, mas não têm recursos para fazer a conversão quanto produtores que hoje estão com restrição de liquidez, precisam de uma injeção de recursos e têm terras para converter. Ele acredita que, uma vez que os fundos árabes se engajem nesse projeto, outros países também podem demonstrar interesse, como a China ou nações europeias. Por ora, os investidores árabes foram os que deram mais sinalização de interesse pela ideia. O Ministério da Agricultura também pretende discutir formas de atrair o capital de outras regiões. Segundo Augustin, para atrair capital europeu, seja crédito com taxas baixas ou equity, o Brasil teria que oferecer vantagens ambientais, como a garantia de preservação da vegetação para além do exigido no Código Florestal. Em paralelo, a Pasta também vem prospectando possibilidades junto a organismos internacionais para receber recursos de financiamento a baixo custo, mas disse que as conversas ainda estão no início.
GLOBO RURAL
ECONOMIA
Dólar supera R$5,40 em dia de ruído sobre vistos de brasileiros e pesquisa eleitoral
O dólar fechou a quarta-feira em alta ante o real, novamente acima dos R$5,40, na contramão do recuo da moeda norte-americana ante boa parte das demais divisas no exterior, em uma sessão marcada pela suspensão do processamento dos vistos de brasileiros pelos EUA e por nova pesquisa eleitoral Genial/Quaest.
O dólar à vista encerrou o dia em alta de 0,47%, aos R$5,4012. No ano, a divisa acumula queda de 1,60%. Às 17h22, o contrato de dólar futuro para fevereiro — atualmente o mais negociado no Brasil — subia 0,37% na B3, aos R$5,4160. Divulgada pouco depois das 10h, a pesquisa mostrou que, em um dos cenários estimulados para o primeiro turno, Lula tem 36% das intenções de voto, o senador Flávio Bolsonaro (PL) soma 23% e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem 9%. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Nas simulações de segundo turno, Lula vence Tarcísio por 44% a 39% e supera Flávio por 45% a 38%. A pesquisa mostrou ainda que a avaliação do governo Lula variou dentro da margem de erro do levantamento. O percentual dos que têm uma avaliação negativa do governo passou de 38% para 39%, enquanto os que enxergam a gestão positivamente foram de 34% para 32%. O levantamento trouxe pouca volatilidade para o dólar, que seguiu próximo da estabilidade até que a Fox News informou, no fim da manhã, que os Estados Unidos vão suspender o processamento de vistos para brasileiros, dentro de uma medida mais ampla que atinge ao todo 75 países. A notícia foi mal-recebida. “Mesmo que não afete o fluxo (de dólares para o Brasil), a história dos vistos pegou no câmbio”, pontuou o diretor da Correparti Corretora, Jefferson Rugik. Passado o impacto inicial, o dólar devolveu os ganhos e voltou a oscilar abaixo dos R$5,40. Durante a tarde, no entanto, a moeda recuperou algum fôlego, até encerrar pouco acima dos R$5,40. O movimento contrastou com o exterior, onde o dólar cedia ante boa parte dos pares do real, como o peso chileno e o peso mexicano, além de ceder em relação às moedas fortes. As tensões geopolíticas envolvendo a Groenlândia e o Irã também seguiram no radar, assim como declarações de autoridades do Federal Reserve sobre o futuro dos juros nos EUA.
REUTERS
Ibovespa fecha acima de 165 mil pontos pela 1ª vez; Vale dispara quase 5%
Após duas quedas seguidas, o Ibovespa avançou quase 2% na quarta-feira, renovando máximas históricas, em movimento puxado principalmente por blue chips, com destaque para as ações da Vale, que dispararam cerca de 5%.
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa subiu 1,96%, a 165.145,98 pontos, novo recorde de fechamento, tendo marcado 165.146,49 pontos na máxima — novo topo intradia — e 161.974,19 pontos na mínima. O volume financeiro somou R$65,5 bilhões, em pregão também marcado pelo vencimento de opções sobre o Ibovespa. O Ibovespa titubeou brevemente no final da manhã, em meio a pesquisa eleitoral com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na frente na corrida presidencial e decisão dos EUA de suspender o processamento de vistos de vários países, incluindo o Brasil. Mas retomou o fôlego rapidamente, renovando máximas. O Ibovespa tocou os 165 mil pontos em dezembro do ano passado, mas nunca tinha fechado em tal patamar. Perspectivas de queda da Selic, bem como um cenário externo considerado favorável a mercados emergentes, principalmente pelo alívio monetário nos Estados Unidos, estão entre as razões para estrategistas seguirem “overweight” em Brasil. Os primeiros pregões de 2026 também têm registrado entrada líquida de capital externo para as ações brasileiras, com dados da B3 mostrando um saldo positivo de R$2 bilhões até o dia 12. A performance da bolsa paulista descolou de Wall Street, que costuma ser um referencial relevante. O S&P 500 fechou em baixa de 0,53%, em meio a uma bateria de dados econômicos dos Estados Unidos e resultados de bancos.
REUTERS
Brasil tem fluxo cambial negativo de US$671 mi em janeiro até dia 9, diz BC
O Brasil registrou fluxo cambial total negativo de US$671 milhões em janeiro até o dia 9, em movimento puxado pela via comercial, informou na quarta-feira o Banco Central.
Os dados mais recentes são preliminares e fazem parte das estatísticas referentes ao câmbio contratado. Pelo canal financeiro, houve entradas líquidas de US$416 milhões em janeiro até o dia 9. Por este canal são realizados os investimentos estrangeiros diretos e em carteira, as remessas de lucro e o pagamento de juros, entre outras operações. Pelo canal comercial, o saldo de janeiro até o dia 9 foi negativo em US$1,087 bilhão. Na semana passada, de 5 a 9 de janeiro, o fluxo cambial total foi negativo em US$1,696 bilhão.
REUTERS
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